Não é "caso isolado". É violência. É machismo. É nossa responsabilidade.

                           Imagem produzida, meramente ilustrativa 



Por Roberto Lobo

Uma mulher de 28 anos. A cabeça inchada de tanto apanhar. O cotovelo ralado no chão da própria vida. O medo. A vergonha. A decisão, que não é fácil, de chamar a polícia. Do outro lado, o marido. 31 anos. O álcool que solta o monstro. A cocaína que alimenta a fúria. Os socos dados ainda de manhã, que ecoam na alma da vítima até a noite, quando a coragem – ou o desespero – finalmente fala mais alto.

Este não é apenas mais um registro policial da 14ª SDP de Guarapuava. É a fotografia nítida e brutal de um câncer que a nossa sociedade insiste em tratar como uma simples dor de cabeça. O episódio ocorreu na Vila Carli, no último domingo (11), mas poderia ter sido em qualquer bairro, em qualquer cidade. A geografia da violência doméstica não respeita CEP.

Os detalhes são chocantes pela banalidade. A agressão acontece, o agressor foge num Corsa, é localizado depois. Na busca, a polícia encontra a outra face do mesmo demônio: a droga. Cocaína. O pacote de destruição que anestesia a humanidade e solta os instintos mais baixos. O ciclo é conhecido: substância, violência, medo, silêncio.

E é aí, no silêncio, que mora nossa cumplicidade.

Quantas vezes essa mulher já havia sofrido calada antes de hoje? Quantos sinais foram ignorados por familiares, vizinhos, amigos? Quantos pensaram "briga de casal não se mete a colher" e viraram a cara?

                    Imagem produzida, meramente ilustrativa 


A lei tem um nome bonito para isso: "violência doméstica e familiar". Eu traduzo: é covardia. É o uso da força física e psicológica contra quem está em situação de vulnerabilidade, no lugar que deveria ser seu porto seguro. A casa vira um campo de tortura. O companheiro, o algoz.

A polícia militar fez seu trabalho. Atendeu a ocorrência, perseguiu a informação, localizou o suspeito, apreendeu a droga, encaminhou todos para as delegacias especializadas. O aparato legal está aí, mais robusto do que nunca com a Lei Maria da Penha. Mas a lei sozinha não basta. Ela precisa ser acionada. E para ser acionada, a vítima precisa romper uma barreira de terror intimidador.

Enquanto não entendermos que esta não é uma "questão privada", mas um problema de saúde pública, de segurança pública e de decência humana, continuaremos a ler notícias como esta. Enquanto o machismo estrutural ensinar que a mulher é uma propriedade, um objeto de controle, veremos homens transformando amor em posse, e posse em violência.

Para a mulher da Vila Carli, desejamos justiça. E, mais do que isso, redes de apoio. Acolhimento. A certeza de que a sociedade está com ela.

Para o agressor, que a lei seja rápida e exemplar. A prisão em flagrante é só o primeiro passo. Que ele responda por lesão corporal, por violência doméstica, por posse de entorpecentes. E que na cadeia ele reflita sobre o lixo humano em que se transformou.

Para nós, cidadãos de Guarapuava e do mundo, fica o alerta. O dever de não se calar. De ouvir o chão do apartamento ao lado. De perguntar "você está bem?" para a amiga que anda quieta. De oferecer ajuda. De ligar para o 180.

Porque atrás de uma notícia como esta, há uma mulher real. Com o rosto inchado e a dignidade em frangalhos. E ela poderia ser sua irmã. Sua filha. Sua mãe.

Ou você mesma.

Roberto Lobo é repórter investigativo com décadas de experiência em cobertura policial e de direitos humanos. Acredita que o jornalismo deve incomodar, denunciar e, acima de tudo, dar voz aos que não têm.

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