Entre o silêncio e a pólvora: a sucessão de Ratinho transforma aliados em adversários
Nos bastidores do poder, silêncio não é ausência de som. É linguagem. E, no tabuleiro das eleições de 2026, o mutismo do governador Ratinho Júnior começa a produzir ruídos que ecoam alto entre aliados — ruídos de atrito, de desconfiança e de um “fogo amigo” que ameaça sair do controle.
Enquanto o calendário político avança e o carnaval já ficou para trás, o governador segue em modo “mudo” sobre a própria sucessão. Para alguns, é estratégia: deixar o caldo ferver, observar quem aguenta o calor. Para outros, é um cálculo arriscado que pode implodir o projeto do próprio grupo. Em política, o vácuo não fica vazio por muito tempo. Alguém ocupa. E, quando ocupa, nem sempre pede licença.
De um lado do ringue, o figurino do “nome técnico”: alinhado ao núcleo duro do governo, disciplinado, apresentado como solução racional para manter o controle da máquina. Guto Silva aparece nesse script, mesmo vindo do desgaste recente em Pato Branco, onde seu grupo perdeu a prefeitura. O carimbo de “confiança do Palácio” ajuda, mas não apaga as marcas de uma derrota municipal que ainda pesa no currículo político.
Do outro lado, no mesmo barco — por enquanto — está Alexandre Curi. O deputado mais votado do Paraná em diferentes eleições faz o que sempre soube fazer: articula. Circula. Conversa. Costura apoios. E deixa claro, em entrevistas e bastidores, que não trabalha com plano B. Em declarações que repercutiram em veículos de política do Estado, Curi foi direto: é pré-candidato ao governo. Ponto final. O recado está dado, sem entrelinhas.
Na Assembleia Legislativa, o café esfria, mas as conversas fervem. Recados atravessados, indiretas públicas, gestos calculados. A indefinição começa a cheirar a pólvora. O silêncio do comandante, que em outros tempos poderia ser lido como habilidade estratégica, passa a soar como omissão calculada. E omissão, na política, quase sempre cobra pedágio.
Enquanto o grupo do governo se engalfinha nos bastidores, as pesquisas dão um sinal que ninguém no Palácio pode fingir que não vê: Sergio Moro na frente, Requião logo atrás, e o “quase escolhido” patinando no pelotão de trás. A disputa interna vira ruído externo. E ruído, em campanha, vira narrativa contra.
O problema é que o tempo político não espera. Prefeitos querem saber com quem subir no palanque. Aliados exigem direção. A base cobra definição. O eleitor, cansado de suspense, pergunta o óbvio: afinal, quem é o candidato do governo ao Palácio Iguaçu?
Em 2026, a pólvora já está espalhada. Falta apenas alguém riscar o fósforo.