Imagem ilsutrativa
Às oito e meia da noite, quando o "Morro Alto" já se recolhe no silêncio típico de um bairro que se prepara para o descanso E INICIO DE UMA NOVA SEMANA , uma denúncia anônima rompeu a normalidade. Não havia sirenes à distância, nem correria aparente. Apenas o patrulhamento discreto da equipe CHOQUE, avançando rua por rua, atentos ao que muitas vezes passa despercebido.
Foi em frente a uma residência comum, dessas que se confundem com tantas outras de Guarapuava, que o detalhe chamou a atenção. Um adolescente, sozinho, parado diante do portão. Ao avistar a viatura, o corpo denunciou o que a boca ainda não dizia: nervosismo, inquietação, o gesto apressado de quem tenta esconder algo antes mesmo de ser perguntado.
A abordagem veio em seguida. E com ela, o movimento instintivo: o jovem arremessa ao chão um invólucro de cor verde. Dentro, o que parecia pequeno carregava um peso maior — substância análoga à maconha. Questionado, ele não negou. Pelo contrário. Admitiu que havia mais. Não apenas dentro da casa, mas também no matagal do outro lado da rua, como se o entorno fosse uma extensão silenciosa de um esconderijo improvisado.
Os policiais encontraram. Um rastro que não se mede apenas em gramas, mas em sinais de um problema que começa cedo demais. Quase um quilo de substância análoga à maconha, pequenas porções de crack, cocaína, um celular — fragmentos de uma engrenagem que, muitas vezes, captura antes mesmo de dar tempo de escolha.
O adolescente, de apenas 14 anos, foi apreendido. O Conselho Tutelar foi acionado. O caminho seguiu para a Delegacia de Polícia Judiciária, onde os números ganham forma de registro e o episódio passa a integrar estatísticas que crescem à sombra das ruas.
No pacato Morro Alto, naquela noite de 22 de fevereiro, não foi apenas uma apreensão de drogas. Foi o retrato de uma fronteira frágil entre a infância e um mundo que cobra caro, cedo demais. E a pergunta que fica não está nos autos do flagrante: em que momento um menino deixa de ser apenas um menino para se tornar mais um nome em uma ocorrência policial?