Por Roberto Lobo
Somente quem vive no “criativo”, como eu sempre estive em todas as áreas da comunicação – seja no papel de redator, locutor, apresentador, ou criador de conteúdo audiovisual – entende o que significa ter a mente sempre à disposição, assimilando tudo ao nosso redor. Desde os textos mais complexos até até mesmo a bula de remédio, tudo fica guardado no arquivo do maior HD do mundo: nosso cérebro.
E, sem aviso, a mente nos presenteia com algo que, em um primeiro momento, parece aleatório: uma ideia, um insight, ou até mesmo uma reação espontânea durante um momento ao vivo. Quem já fez transmissão ao vivo, ou, como eu, mais de 30 anos em frente às câmeras e microfones, sabe do que estou falando.
A emoção, a pressão, e o inesperado fazem parte do jogo. E foi essa sensação que me invadiu ontem ao maratonar uma série. Algo simples, mas extremamente revelador: no fim de 38 episódios, a verdadeira mensagem era clara: teu cérebro pode te aprisionar ou libertar.
A personagem principal da trama tinha um propósito firme: vingança. Após ver sua mãe ser injustamente presa e morta, ela dedicou sua vida a fazer justiça. Chegando ao auge do poder, conquistou riqueza, mas ao custo de perder tudo o que realmente importava: sua família e amigos. Sua trajetória, com momentos de glória, foi marcada por decisões que pareciam certas à primeira vista, mas que a transformaram em um ser solitário, desprovido de afeto verdadeiro.
Esse enredo, longe de ser uma simples história de vingança, traz à tona uma reflexão crucial sobre o preço do poder. A jovem, em sua busca incessante por sua missão, escalou as maiores alturas da sociedade, mas a escada do poder, como sempre, traz perigos que podem moldar e destruir até os mais nobres pensamentos. A cada passo, o cérebro, antes livre e criativo, é refém da ambição. Ela perdeu-se nesse labirinto, e ao final, de nada adiantou sua riqueza.
Ao longo de minha carreira na editoria política, vi muitos exemplos semelhantes. Políticos que iniciaram sua jornada com grandes propósitos: defender a ética, lutar pelos direitos do povo, e promover a justiça social. No entanto, ao longo do caminho, esses valores foram sendo deixados de lado, à medida que a sede de poder crescia. Vi de perto como um cargo de presidente de Câmara, deputado, prefeito, ou até mesmo governador pode alterar completamente a essência de uma pessoa.
Lembro-me de uma conversa com um político, já falecido, com quem trabalhei em sua primeira campanha. Após uma entrevista ao vivo no meu programa, ele agradeceu, dizendo que o sucesso não teria sido possível sem o meu apoio. Ele, então, me fez uma promessa: “Lobo, eu vou continuar separando o fim de semana para minha família. Domingo é sagrado para estar com eles, missa , Alomço em familia e a tarde o passeio .” Era uma promessa de manter os valores familiares acima de tudo.
Mas o tempo passou. O poder aumentou. E, com ele, os valores se desvaneceram. Esse político tornou-se uma figura de poder absoluto, mas sem amigos reais. A vida que levava era recheada de chantagens, corrupção e uma busca insaciável por dinheiro.
Quando ele faleceu, poucos estavam lá para lamentar. Os puxa-sacos haviam desaparecido, e até sua família já não fazia parte de sua vida.
Este personagem da vida real, assim como a jovem da vingança, foi consumido pelo ódio e pelo desejo obsessivo de poder. Quando a busca por status e riqueza se torna a única razão de existir, a alma se perde. E o cérebro, antes criativo, é aprisionado por essas correntes invisíveis do ego e da glória passageira.
Poder, muitos querem, mas poucos conseguem manter sua essência no caminho. Como vimos, tanto na ficção quanto na realidade, a perda de valores essenciais – como a família, a amizade e o respeito pelo próximo – leva à queda.
A verdadeira riqueza não está no poder ou no dinheiro, mas sim nas relações genuínas que cultivamos ao longo da vida.
Na vida pública ou privada, sem a base sólida da família e da amizade verdadeira, o sucesso se torna vazio.
E, no final, é fácil perceber que a falsidade, tão comum ao lado do poder, é um dos maiores inimigos de nossa saúde mental e emocional. O poder pode até trazer vitórias, mas a verdadeira liberdade está em ser fiel a si mesmo, sem abrir mão daquilo que realmente importa.
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