Não foi o lixo que a cidade descartou na segunda-feira cinzenta. Foi um homem. Sobre o asfalto úmido da rotatória onde a Rua dos Pioneiros cruza com a Avenida Michael Moor, em Entre Rios, um corpo dobrou-se sobre si mesmo, ponto final abrupto traçado no concreto. O dia 5 de janeiro de 2026 anotou, em letras mortas, sua primeira tragédia guarapuavana.
As primeiras palavras de alarme chegaram aos ouvidos da Polícia Militar às 13h51. Vozes sobrepostas, cortadas pelo fio da urgência, descreviam um homem caído. E, diante dele, a massa metálica e habitual de um caminhão de lixo – cenário banal que, num piscar de olhos, virou palco do fim. Anônimos transformaram-se em heróis de primeira linha, pressionando feridas, oferecendo sopro, travando um cabo-de-guerra silencioso contra um inimigo invisível que já ganhava terreno.
A sirene tornou-se o mantra do desespero. Primeiro, foi o Hospital Semmelweis que lançou seu cavaleiro branco ao asfalto. Médicos saltaram, e o ritual conhecido começou: compressões, comandos secos, o olhar fixo no que a vida ainda insiste em mostrar nos monitores. Depois, a batuta passou para o SAMU, que carregou consigo o corpo e a última réstia de esperança no vai-e-vem frenético da ambulância. Dentro daquela cápsula de aço em movimento, porém, a batalha foi perdida. A vida escoou entre Guarapuava e o seu destino, deixando apenas o silêncio solene da derrota.
Com o óbito anunciado, o caso mudou de natureza. A ciência da emergência deu lugar à ciência da lei. A Polícia Civil e a Perícia chegaram para decifrar o silêncio. Mediram, fotografaram, escrutinaram o cenário. Procuraram a falha, o deslize, o momento exato em que o equilíbrio se quebrou. Buscaram uma culpa que, ao que tudo indica, não veio ao encontro.
O motorista do caminhão, o homem que acordou para uma rota comum e se viu no epicentro de um pesadelo, foi submetido ao rigor do etilômetro. O aparelho cuspiu seu veredito frio: 0,00 mg/L. Nenhum álcool no sangue, nenhuma irregularidade gritante no veículo ou na documentação. A morte, nesta tarde, parece ter chegado sem convite, sem motorista bêbado, sem pneu careca. Chegou como um acontecimento puro e devastador, um raio em céu aparentemente limpo.
Restou o corpo. A cena foi desfeita, os curiosos se dissiparam, o trânsito retomou seu fluxo indiferente na rotatória. A única testemunha que não fala segue agora para o Instituto Médico Legal de Guarapuava, onde outros tipos de peritos tentarão, nas entranhas silenciosas, escrever a última sentença de uma história cujo capítulo final já se sabe, mas cujo prólogo permanece um mistério enterrado no peito de um homem sem nome.
A morte, às vezes, não precisa de um vilão. Basta um instante. Uma rotatória qualquer. E o giro que não se completa.

